Um espírito inquieto
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Um espírito inquieto
Por Renato Ortiz


Quando o conheci, creio que no ano de 1992, em Acapulco, participávamos de um encontro das Faculdades Latino-americanas de Comunicação, ele disse-me que gostaria de pescar. De fato, pelo que soube depois, aventurou-se ao mar na busca de algum peixe que talvez Hemingway tivesse esquecido de fisgar. Aos poucos fui me acostumando com os arroubos de Aníbal e a compreendê-lo melhor. Em nossas conversas, eram sempre esporádicas, quando viajava à Buenos Aires ou nos víamos em algum seminário acadêmico, ele insistia sempre no tema da exploração, as viagens que tinha feito nas altitudes dos Andes, o projeto sobre o farol do fim do mundo. Costumava citar uma frase de Sartre, eu a desconhecia, de que somente nos Estados Unidos um escritor podia saltar de um trator, quando estava arando a terra, e imediatamente voltar para o livro no qual vinha trabalhando. Aníbal não via como antípoda o corpo e a mente, no seu entender, a escrita tinha algo de material, como se uma força motriz habitasse o domínio das idéias. A atividade intelectual seria portanto inteligência e labuta, criatividade e suor, artesanato permanente no qual o intelecto e o corpo encontrariam satisfação. Não sei bem explicar a razão, mas nutríamos entre nós uma conivência mútua. Algo nos aproximava, esgueirava-se de maneira subterrânea, implícita, talvez uma intenção vaga, mas poderosa, que se materializava na ideia de aventura. Passávamos horas falando de viagens imaginárias, minha ida à China com Octávio Ianni, ela nunca se concretizou, seus deslocamentos pelo mundo, sem deixar sua casa simpática e amarelada pelo tempo na rua Teodoro Garcia. As noções de exploração e aventura ancoram-se numa dimensão corporal. É necessário partir. Sem este ato arbitrário e definitivo a viagem se resumiria ao âmbito de uma projeção frustrada. Meu corpo, ao cruzar as fronteiras distantes, deve experimentar as sensações de prazer e desgosto, alegria e repulsa, que as surpresas e as adversidades do trajeto impõem. A viagem retira-me da tranquilidade familiar, o que me é conhecido. Mas ela contém, ainda, um aspecto intelectual. Simmel cultivava a ideia da Sociologia como uma aventura. Para se imaginar algo diferente é preciso deambular por terras desconhecidas. O olhar estrangeiro destoa da mirada habitual das coisas, ele é uma artimanha para se construir uma alteridade em relação à si mesmo . Esta seria uma forma de se resistir ao conformismo das idéias. Aníbal sabia disso. Pensar, como existir, exige algum tipo de transgressão, uma quebra do protocolo das fronteiras, sem o que os textos e a vida tornariam-se insípidos.


Renato Ortiz
São Paulo 15 de novembro de 2009


Renato Ortiz se graduó en sociología en la Universidade de Paris VIII y se doctoró en sociología y antropología en la École des Hautes Études. Fue investigador del Latin American Institute de Columbia University y del Kellog Institute de Notre Dame. Actualmente, es Profesor titular del Departamento de Sociología de Unicamp. Ha publicado, entre otros, A conciencia fragmentada, Pierre Bourdieu, Cultura brasileira e identidade nacional, A moderna tradição brasileira. En español: Otro territorio; Mundialización y cultura; Los artífices de una cultura mundializada; Modernidad y espacio. Benjamin en París.

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